sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Eurovision Song Contest: " Algumas considerações... "

Andava já há algum tempo para escrever sobre o Festival da Eurovisão da Canção e falar da presença portuguesa nos Anos 80. Tendo em conta que o nosso país padece do " Mal do Eurofestival ", fruto dos sucessivos desaires ao longo de mais de quarenta anos, achei por bem falar primeiro sobre as razões que estão na origem deste mal e deixar para mais tarde um post dedicado à participação lusa na década de 80.
As primeiras memórias que guardo do Eurofestival remontam ao início dos Anos 80 com José Cid. Nessa altura o evento já não mexia com o povo português como nos primeiros anos, mesmo assim, ainda era um acontecimento que juntava as famílias Sábado à noite em frente à televisão para ver se era desta que ganhávamos. Lembro-me particularmente do ano de 1989, em que os nossos representantes foram os Da Vinci, e de todo o frenesim à volta de " Conquistador " (tema já aqui falado no post de 7 de Janeiro). Não me lembro de uma música que tenha reunido tanto consenso como a daquele ano. Mas, quanto mais se sobe maior a queda e não fomos além do 16º lugar. A música era perfeita para o Eurofestival mas esqueceram-se de cantá-la em inglês.
Apesar da descrescente popularidade ao longo da década de 90, alcançaríamos a melhor posição de sempre precisamente em 96 com Lúcia Moniz, quando nada o faria prever. Depois disso foi para esquecer. É sobre este nosso mal crónico que também já começou a afectar outros países com tradição vencedora da Europa Ocidental e Central, que escrevi o seguinte:

A última edição do Eurofestival veio confirmar a hegemonia dos artistas da Europa de Leste e o declínio dos países que, até há bem pouco tempo, disputavam as posições cimeiras deste evento.
Esta tendência tem vindo a acentuar-se nos últimos anos se considerarmos os cinco primeiros classificados, de 2000 a 2007:
  • Países da Ex-URSS e Europa de Leste – 15 Top 5
  • Países dos Balcãs e Mediterrâneo Oriental – 13 Top 5
  • Países Nordicos – 7 Top 5
  • Países da Europa Ocidental e Central – 5 Top 5
Se é verdade que os países da Europa Ocidental e Central já não olham para o Eurofestival como alavanca impulsionadora de carreiras, não é menos verdade que a invasão do Leste alterou as regras pelas quais o Eurofestival se regeu durante quatro décadas. Regras estas que não passam apenas pelo apuramento de um maior número de países, mas também no evelar do patamar quanto à organização do evento, sem esquecer as mega-produções e performances dos artistas de Leste, que os do Ocidente parece não terem pedalada para acompanhar.
Como é que é possível que Portugal, país participante desde 1964, não tenha conseguido melhor que um 6º lugar em 1996, quando países como a Rússia, Estónia e Letónia chagam regularmente aos primeiros lugares? Nos Anos 80 tinhamos boas canções pop cantadas em português, sem resultado. Mais recentemente fez-se a experiência de cantar em inglês... ficámos aquém na performance. Quando é que, de uma vez por todas, aprendemos a cantar em inglês e a fazer uma performance que não nos envergonhe? Não estará na altura de repensar os moldes em que tem sido feito o apuramento e concentrarmos esforços em apenas um artista, de forma a dar-lhe as condições necessárias para ter hipóteses de fazer boa figura lá fora?
Em vem de nos lamentarmos e dizermos que o Eurofestival já não interessa, porque não pensar fazer melhor e procurar adaptarmo-nos a uma nova realidade? Queremos ficar desactualizados e sem reacção perante o que nos chega do Leste? É preciso não esquecer que à pouco mais de 15 anos estes países ainda estavam por detrás da cortina de ferro! Não estaremos perante o eterno problema cultural de falta de competitividade?
Estamos a perder terreno para quem há pouco tempo chegou ao palco da Eurovisão e aprendeu mais em dez anos do que nós em quarenta. Temos o exemplo da concorrente da Ucrânia em 2004: antes do festival já tinha percorrido quase toda a Europa (Portugal incluído) para promover o tema " Wild Dances ". Os resultados estiveram à vista e Ruslana acabaria por vencer nesse ano.
Quem nos dias de hoje está interessado num Eurofestival realizado em pequenos auditórios onde a assistência mais parecia estar numa cerimónia de gala? Este foi o modelo do Eurofestival do passado, que teimosamente recordamos mas que nunca nos levou muito longe. Artistas para consumo interno não vingam lá fora. Está na altura de aprender com o que vem do Leste, sem renegar à nossa identidade.
Quando, na edição de 2006, os LT United da Lituânia gritaram bem alto “ We are the winners of Eurovison “, respirou-se confiança e atitude. Este é o espírito reinante a Leste e apesar de terminaram apenas em 6º lugar, não passaram despercebidos. Protagonizaram a diferença e inovação que se impôs definitivamente na Eurovisão nos últimos anos. A Leste tudo de novo!


* A referência a " boa música " ou " música perfeita " para o Eurofestival em nada tem a ver com qualidade da mesma. Significa antes encontrar o registo certo (quase sempre pop), já para não falar de outros interesses.

3 comentários:

Anónimo disse...

LT United?

Bah, em 2006 o ano foi dos LORDI!

BV disse...

Caro Anónimo,
Obrigado pela participação, mas preferia que se identificasse! Falou nos Lordi e muito bem porque também fazem parte da realidade descrita neste post, independentemente de se gostar ou não. Apesar de não fazerem parte dos meus gostos habituais também não fiquei indiferente à vitória dos finlandeses. " Hard Rock Halleujah " apesar de hard-rock é bastante orelhudo e ouve-se bem. Quanto ao video, a escolha dos LT United deveu-se ao facto de, no meu entender, terem sido a banda que melhor captou o espírito e atitude que cada país deve ter quando participa no Eurofestival.
Cumprimentos...

ana disse...

Sim recordo-me bem desses sábados em frente à tv pa ver o festival!
Mas eram outros tempos, tempos de fascínio pela diferença, e apelo a outras referências culturais de outros países. Depois afinal "juntamo-nos todos" uhh! globalização! Então deixou de existir interesse, a não ser pela novidade, os países de Leste!!
Depois reportando mais á nossa realidade, tens razão, o marketing que outros países exercem nos seus concorrentes é admirável! Já nós teimamos em nos organizar em pseudo equipas de músicos com talento, mas que para este evento entendem, forçadamente, compor e criar novos artistas sem interesse!!
É! A era do festival já lá vai... até porque ainda faltaria fazer aqui referências políticas que insistem em defender que não existem neste tipo de evento!!! ops nem neste nem no da eleição das Maravilhas!!!

Giro este teu artigo! ;)
bjokas